Especialistas respondem: Afinal, qual o problema com a TI na Bahia ?

Qual o problema com a TI na Bahia ?

Se você é da Bahia, este texto muito te interessa por razões óbvias.

Se você não é da Bahia, recomendo que continue lendo pois as informações compartilhadas a seguir mostram o retrato de um mercado de TI complicado, o que pode estar no seu passado ou (espero que não) futuro.

Muito se discute sobre o mercado de TI na Bahia, e as redes sociais estão infestadas de debates acalorados sobre a situação ruim que os profissionais de TI baianos vivenciam há anos.

Na tentativa de entender o problema, mas acima de tudo de apontar uma solução, resolvi consultar gente que considero com experiência, conhecimento e discernimento suficientes para responder clara e objetivamente dois questionamentos que embasam esta análise.

Pergunta 1 - Qual o maior problema do profissional de TI da Bahia ?

Pergunta 2 - Qual o maior problema do mercado de TI na Bahia ?

Certamente estas duas perguntas não abordam todos os aspectos envolvidos num cenário complexo como o do mercado de TI na Bahia, mas foi o melhor que consegui, buscando um equilíbrio entre facilitar a obtenção de respostas e fornecer informação relevante para os profissionais. E acredito que o resultado ficou bem interessante, como você pode ver abaixo.

Encaminhei estes questionamentos para profissionais de ensino em instituições reconhecidas na Bahia, donos de empresas de TI locais e profissionais do mercado em geral, todos com bastante "tempo de estrada" e alguns com experiência até no exterior.

Compartilho as respostas com vocês a seguir, mas sem revelar nomes, deixando a cargo de cada um dos entrevistados se identificar nos comentários se assim desejar.

Pergunta 1 - Qual o maior problema do profissional de TI da Bahia ?

Resposta 1: "Falta de comprometimento com metas e prazos, ou seja, com o empregador ou cliente."

Resposta 2: "Difícil de responder, pois não acho que exista um maior problema. Acho que existem vários. Acho que um grande problema é a falta de comprometimento profissional. Hoje em dia, o profissional recém formado procura muito mais salário do que 'emprego'. Mas acho também que esta questão apontada pode ser fruto de outras questões mais profundas que precisam ser analisadas. Com a venda das faculdades que eram conhecidas por sua excelência, o ensino de alunos da computação na Bahia também sofreu muito. Mesmo as universidades públicas na Bahia hoje possuem problemas estruturais para dar uma boa formação de maneira geral."

Resposta 3: "Falta de capacitação e formação técnica adequada, não conhecem idioma inglês."

Resposta 4: "O maior de todos acredito que seja encontrar um emprego que pague bem, pois o custo de vida de Salvador é muito alto."

Resposta 5: "Baixa qualificação, falta de iniciativa, quer ganhar como profissional experiente sem ter a experiência correspondente (acho que estes problemas são gerais da mão de obra na Bahia). Existe também a falta de regulamentação da área que acaba contribuindo para que profissionais sem formação e qualificação degradem o mercado."

Resposta 6: "Comodismo. O profissional daqui se contenta com pouco e não investe em autocapacitação. Os melhores vão para concurso público ou saem do estado. Muito poucos empreendem."

Resposta 7: "Acho que as perguntas 1 e 2 se misturam um pouco. Tipo causa e efeito.

A área de TI de um modo geral é uma área 'meio' e não uma área 'fim'. Isso faz com que a maioria dos profissionais fiquem muito focados em aspectos estritamente técnicos da área. E na verdade os profissionais precisam desenvolver outras capacidades como a de comunicação, negociação, conhecer aspectos organizacionais da empresa e do mercado em que atuam. Claro que a base de tudo é o conhecimento técnico, mas percebo que a maioria tende a ficar estagnado. Não buscam novos horizontes e até mesmo o conhecimento técnico que já possuem corre o risco de ficar obsoleto com o tempo.

Em contra partida, os empresários e o mercado de um modo geral já assimilaram que o profissional de TI é 'um técnico', e não um profissional especializado, capaz de resolver conflitos, planejar e gerenciar projetos, gerir um negócio e etc. Lógico que isso não é uma regra geral, mas traz consequências. Muitos profissionais não têm o reconhecimento que merecem."

Atualização!
Resposta 8: "Não enxergar a área de computação como futuro estratégico. 

Infelizmente, por falta, talvez, de uma cultura empreendedora e ausência de competitividade no mercado, muitos se deixam atrair pelo canto da sereia em querer muito fazendo pouco. 

De toda a sorte, vejo que isto está mudando aos poucos."

Pergunta 2 - Qual o maior problema do mercado de TI na Bahia ?

Resposta 1: "Perspectivas imediatistas e limitadas por baixo, ou seja, miopia empresarial."

Resposta 2: "Também creio que não há um maior problema, mas sim vários que juntos formam um quadro desolador nesta área. Falta de cursos de excelência na área, falta de incentivo para trazer boas empresas, por outro lado empresas que não encontram mão-de-obra especializada, globalização dos serviços de TI e necessidade do uso do idioma Inglês, empresas que pagam salários baixos, etc."

Resposta 3: "Profissionais não se adequam à nova realidade, estudam pouco e não se atualizam."

Resposta 4: "A Bahia está defasada tecnologicamente comparada com outras cidades, estados, países. Não possuímos nem eventos e nem polos tecnológicos suficientes para criarmos sinergia para sermos bons e fazermos girar o conhecimento entre nós mesmos. Estamos geograficamente isolados e sem capital para investir e ir a outros lugares. Utilizamos apenas a Internet e mão na massa (auto ditada) para tentarmos sobreviver e nos atualizarmos no mundo da tecnologia."

Resposta 5: "Mercado pobre e com baixo investimento em TI. Embora tenha havido uma significativa valorização da profissão e o aumento da demanda."

Resposta 6: "Pensar pequeno. O mindset deles é de achatar custos, pagar mais barato, contratar profissionais medíocres, não inovar e não investir na 'prata da casa' (talvez pelo item 1). Vejo pagarem para levar gente daqui para treinamentos fora, mas não investem em treinamentos locais (nem patrocinando nem pagando pros funcionários)."

Resposta 7: "Sobre o mercado de TI na Bahia, além dos aspectos que comentei acima, acredito que na Bahia existe um agravante. As grandes empresas que são referencias na área de TI já não estão sediadas na Bahia. Durante anos os melhores profissionais estiveram alocados nestas empresas. Hoje a maioria destes profissionais já não se encontra na Bahia, e acredito que as empresas de fora da Bahia buscam profissionais afim de mão de obra barata. Já as empresas locais precisam vencer 2 desafios. Como concorrer com empresas maiores com sede fora da Bahia que já têm os melhores profissionais e possuem um grande poder de negociação para alavancar novos projetos ? Como atrair bons profissionais com um plano de carreira, bons salários e etc ?"

Atualização!
Resposta 8: "São vários, mas um dos principais problemas é estar na mão de um único grande pagador: O Estado da Bahia. 

São necessárias políticas de estímulo para atração de empresas que venham a desenvolver/prestar serviços em TIC para outros clientes espalhados no Brasil e mundo. Por outro lado, internamente, temos muitas possibilidades a explorar, visto que há um estado do tamanho da França com 417 municípios sedentos por conectividade, software e serviços.  A intervenção do governo é fundamental para criação de uma infraestrutura tecnológica que venha a promover um novo paradigma de público consumidor. Acredito que, paralelo às atrações de empresas, podem criar um novo cenário de consumo interno que nos sustente de forma mais consistente."

Sobre o Profissional de TI na Bahia 

Do ponto de vista do profissional, está claro que há um certo "consenso" que o profissional de TI da Bahia não tem comprometimento, o que acarreta em consequências graves para sua carreira.

Percebo que muitos estudantes, por exemplo, esquecem que seus professores podem ser a porta de entrada para indicações de vagas interessantes no mercado, ou até mesmo serem seus empregadores no futuro, e não se dedicam o suficiente nas aulas, passando uma imagem ruim e fechando as portas para muitas possibilidades no mercado.

Outro problema apontado por vários entrevistados é a falta de qualificação, e aqui há que se considerar dois aspectos: qualidade de ensino e postura do profissional.

Com relação à qualidade do ensino, há problemas sim, e acredito que professores podem trabalhar pra tentar reverter o quadro, repensando métodos de ensino e adotando abordagens mais próximas da realidade dos alunos.

Quanto à postura do profissional, tendo a concordar com o que um dos entrevistados disse sobre querer salário em vez de emprego, e o que outro disse sobre querer salário de profissional experiente. O profissional deve ser capaz de responder a seguinte pergunta: "O que eu tenho de diferencial que justifica um salário melhor ?". Vejo muita gente fazendo trabalho "comum" e querendo salário "diferenciado". Agora há os casos raros de profissionais que não têm o reconhecimento que merecem, e para estes, dou o seguinte conselho: pense global, esqueça o local. Se você é realmente diferenciado, há alguém, em algum lugar do mundo, que vai valorizar isto. Procure que você vai encontrar.

Outro ponto que merece destaque é a falta de conhecimento do inglês. Posso falar por experiência própria que o inglês pode mudar sua vida. Depois que passei a consumir mais informação em inglês que português, construí conhecimento, reputação e credibilidade que estão me permitindo aproveitar mais e melhores oportunidades no mercado local e nacional.

Foi abordada também a questão da regulamentação da profissão, mas não sei até que ponto isto poderia fazer uma grande diferença no mercado além de estabelecer um piso salarial.

Ser visto apenas como técnico é outro ponto interessante a ser discutido, e entendo que isto pode ser um problema realmente, embora seja possível reverter esta situação, e já vi casos assim, onde o profissional de TI foi lá e mostrou como a tecnologia poderia fazer a diferença no negócio, e assim conquistou uma posição melhor dentro da empresa.

Outro ponto relevante abordado foi o fato de se contentar com pouco, e acho que isso vale pra muitos profissionais e empresários na Bahia, que pensam pequeno, como disse um dos entrevistados.

Sobre o Empresário de TI na Bahia

Aqui também temos um consenso sobre mão de obra barata e pensamento limitado e imediatista. Basicamente, o empresário de TI da Bahia quer mão de obra barata pra fazer coisas simples, com as quais ele possa ganhar uma grana sem ter que inovar ou mesmo pensar muito.

Outro ponto que é praticamente consenso é a falta de investimento em TI, tanto da iniciativa privada (os grandes data centers que haviam aqui se foram todos) quanto da iniciativa pública (ainda são muito limitados os resultados do Polo Tecnológico, até onde consigo perceber). Eu confesso que "essa conta não bate" na minha cabeça. Como um local onde a mão de obra é barata não atrai mais empresas ? Por que aí a mão de obra deixaria de ser barata ? Lobby ? Sei não...

A falta de mão de obra qualificada foi outra questão apontada, mas penso que isso não é tão relevante na medida em que vejo muitas empresas em SP contratarem gente sem experiência pra treinar "do zero", devido à escassez de mão de obra especializada. Por que as empresas daqui não fazem isso ? Ou fazem ?

Sobre a concorrência com grandes empresas, isto é um problema grave na disputa por contratos com o governo, por exemplo, onde um projeto pode gerar uma demanda para contratação de dezenas ou mesmo centenas de profissionais, e como é cada vez maior a possibilidade de execução remota do trabalho, concorrer com empresas de fora com melhores profissionais e maior produtividade realmente fica difícil.

Sobre estarmos geograficamente isolados, entendo que a realidade atual mostra que isso pode ser contornado pelo exposto no trecho acima, e conheço vários profissionais que trabalham aqui na Bahia para empresas de fora, remotamente.

Conclusão

Temos muitos desafios a superar se quisermos realmente construir um mercado de TI melhor em nosso estado. Mas acredito que seja plenamente possível, e temos exemplos de sucesso que podemos tentar reproduzir e multiplicar.

Entendo que para isso são necessárias algumas mudanças, que relaciono a seguir.
  1. Postura mais comprometida e dedicada do profissional de TI (se esforce "mesmo" pra cumprir metas, prazos e entregar resultados de qualidade, seja na faculdade ou na empresa);
  2. Postura mais empreendedora do profissional de TI (pense mais como prestador de serviço, e menos como empregado);
  3. Postura mais globalizada do profissional de TI (você pode viver aqui e trabalhar pra qualquer empresa do mundo!);
  4. Postura mais "educadora" das empresas de TI (estabeleçam acordos com seus funcionários trocando treinamentos "de ponta" por compromisso de não deixar a empresa num período determinado);
  5. Postura mais "empreendedora" das instituições de ensino, fomentando nos professores e alunos o interesse em empreender, criar, inovar.
Sei que esta é apenas uma pequena contribuição para o debate sobre nosso mercado de TI, e espero que as informações aqui compartilhadas possam ser úteis de alguma forma. Vamos continuar este debate nos comentários!

E você, o que acha que podemos fazer pra melhorar o mercado de TI na Bahia ? Diz aí!

Christian Guerreiro

Professor por vocação, blogueiro e servidor público por opção, amante da tecnologia e viciado em informação.


Ensino a distância em Tecnologia da Informação: Virtualização com VMware, Big Data com Hadoop, Certificação ITIL 2011 Foundations e muito mais.


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Eu vou ficar muito grato (e quem fizer os curso também :)!